Decálogo ao jovem crítico cinematográfico

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  1. Apresente informações relevantes da produção

Ao escrever uma crítica sobre um filme é preciso apresentar informações básicas sobre a produção, tais como título da obra em português, título original, ano de lançamento e direção. Dependendo do enfoque e os destaques do texto, também convém assinalar quem assina o roteiro, a direção de fotografia, a direção de arte, etc. E, acima de tudo, procure transmitir essas informações o quanto antes no texto.

  1. Aponte qual é o gênero da história

Uma vez que toda obra pode ser categorizada dentro de um gênero, a função do crítico seria apontar quanto determinada produção confirma ou inova determinado modelo. E, vale lembrar, para esse tipo de atividade é importante ter um repertório mínimo, pois se a aferição de valor surge por comparação, é preciso conhecer vários outros espécimes do gênero para estabelecer um julgamento valorativo da obra em si. Muitas das vezes, o comparativo pode se dar, ainda, em relação às outras obras do mesmo diretor. Quanto a esse aspecto, também é produtivo situar a obra em relação à cinematografia do diretor, apontando erros e acertos, a depuração do estilo e as apostas estilísticas.

Outro dado muito importante diz respeito às combinações de gênero, uma vez que a crítica é unânime em sinalizar de que não há gêneros puros. Logo, pontuar os componentes inerentes a outros modelos narrativos é uma tarefa básica. Acostume-se ao texto crítico que avalia as combinatórias gênero-barra-gênero (horror/ficção científica, por exemplo).

  1. Discuta sobre o que a história trata

Em linhas muito gerais, o crítico deve apresentar a história. Pode até se valer do sete loci (O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? Para quê?) como um guia primário, mas tendo o cuidado para não revelar detalhes em demasia e enveredar para um texto com spoilers (revelações de momentos de virada da trama, de detalhes sobre o desfecho ou de outras circunstâncias nas quais a surpresa deva ser preservada). O crítico deve, a princípio, guiar o olhar do espectador e, nessa pedagogia, destacar o que for essencial. Nesse ponto, é possível discutir questões como: qual a premissa do filme? Como a premissa se ajusta à estrutura da narrativa? Como os personagens dão conta de expressar as questões propostas? Como a história aprofunda, areja ou reitera componentes tradicionais do tema?  Quais outros filmes já trataram do mesmo assunto? Qual o tipo de abordagem do tema? Há metáforas e alegorias? A história é uma adaptação? Um remake? Lembre-se: o texto crítico precisa estabelecer-se a partir de um comparativo, ainda que essa comparação não esteja explícita no discurso.

  1. Quem são os personagens

Ao se referir aos sujeitos ficcionais da trama, não se esqueça de nomear o personagem e, em seguida, indicar quem é seu intérprete. Pontuar o desempenho dos atores/atrizes também colabora para dar uma avaliação global sobre a produção. Inclusive no sentido de indicar como uma boa atuação realça um roteiro ou como um bom roteiro é prejudicado por uma atuação incipiente.

  1. Evite adjetivação pessoal, jargões e expressões vazias.

Por mais que se trate de um texto que formula um parecer crítico e, logo, valorativo de uma obra, não convém marcar uma postura imparcial. O crítico precisa manter certa neutralidade no discurso, ao modo de um jornalista, tendo a capacidade de se posicionar criticamente diante de qualquer objeto por mais que não seja sua seara favorita. Portanto, usar com parcimônia e sofisticação os adjetivos (e também os advérbios), os maiores responsáveis pela marcação pessoal de julgamento, deve ser uma regra. Então, nada de dizer que a fotografia é belíssima, o diretor é magnífico, o filme é estupendo. Especialmente se esse é apenas um adjetivo que não é justificado pelo texto. Afinal, o leitor precisa saber por quais razões técnicas e objetivas aquele atributo está sendo empregado para aquela produção.

O mesmo vale para os jargões e expressões vazias. Dizer que a direção é segura ou a montagem é precisa não colabora em nada para o texto, sobretudo porque parte do pressuposto de que aquela obra se destaca das demais, as que são seu oposto: feitas de uma direção insegura e de uma montagem imprecisa. Ou, de outra sorte, dizer que uma direção de arte é acertada é incorrer em uma expressão vazia que apenas funciona como uma muleta econômica: não vai além disso. Por que a direção é acertada? Como colabora para a criação da ambiência, da atmosfera, da caracterização do espaço e do personagem? Etc. Julgamentos valorativos necessitam de um complemento – a explicação.

  1. Saiba a que público seu texto se dirige

Há estilos diferentes e públicos diferentes. Não seja acadêmico em uma crítica de cunho jornalístico ou informal em um artigo em periódico especializado. Cada tipo de texto tem seu tipo de leitor, e se isso é verdade para todos os gêneros literários, também o é para a crítica. O suporte ou veículo de circulação pode colaborar para a definição de suas escolhas textuais.

  1. Não tenha preconceitos

Tratar qualquer gênero ou estilo com desprezo é se fechar para novas experiências profissionais e arriscar a sustentação intelectual por meio de seus textos. Um dever primordial do crítico é lidar com todos os objetos, sem exceção, evitando as generalizações negativas de gêneros cinematográficos e, consequentemente, a recusa por um determinado filme. Cada obra audiovisual, independentemente de seu gênero, tem um potencial individual, especialmente por conta da gama de hibridações possíveis de ocorrer com outros gêneros.  Portanto, independentemente do seu repertório e de suas afinidades eletivas, não seja depreciativo com qualquer obra ou categoria por simples (e injustificado) preconceito pessoal.

  1. Estude e dialogue

Um crítico que leve a sério o que faz precisa buscar todos os meios ao seu alcance para se aperfeiçoar. Estude história, teoria, técnicas, leia as obras seminais e os trabalhos de outros críticos. E veja filmes. Inúmeros filmes. Além disso, esteja aberto ao debate com aqueles que concordam e discordam de você. Trata-se de um excelente treinamento tanto para o desenvolvimento de seus próprios argumentos quanto para valorizar aquilo que o olhar do outro alcançou.

  1. Desvie-se do texto poroso

Um crítico perde a capacidade de dizer algo quando entrega a tarefa ou o esforço para os outros, soterrando sua própria voz. Portanto, nada de reproduzir longos trechos de material de press release, de entrevistas dos criadores e/ou de comentários de outros críticos. Se o fizer, estabelece um equilíbrio saudável: convoque informações pontuais que reforcem sua argumentação. São como para coroar suas próprias observações. Do contrário, se assim não for, o texto fica aerado com tantas outras vozes que chega a perder a função de crítica.

  1. Entenda que o crítico produz um texto de risco

Por ser um texto judicativo, no qual é preciso posicionar-se diante de determinada obra, pode-se dizer que a crítica cinematográfica é onde se pode perceber o sujeito e seus artefatos. E essa é uma tarefa que envolve risco. Muitas vezes seu produto textual pode seguir pela contramão dos demais textos, o que não significa que seja uma via de demérito. Nada é consensual em termos de arte. O importante, contudo, é assumir os riscos com consciência ao estabelecer inusitadas relações, propor aproximações, assumir leituras metafóricas. É conhecer a natureza do próprio gênero textual – a crítica – e reconhecer a possibilidade do direito de resposta, da revelia, do contra-argumento. Esteja preparado e só assine embaixo de um texto que você realmente acredita: pois quando tiver de defendê-lo, poderá fazê-lo sem culpa e sem reservas.

A crítica cinematográfica não se trata, contudo, de uma arena de embates, sejam eles com luvas de boxe ou luvas de pelica. Antes disso: é um lugar no qual o crítico deve correr o risco de sofisticar o próprio pensamento e o dos outros. Sobretudo o dos outros.

Marcio Markendorf & Gabriel Resende Santos