Até que a Sbórnia nos Separe: peixe pequeno

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O lado mais negativo da globalização é o seu jogo ingrato entre o mais forte e o mais fraco. O objetivo não é necessariamente a dominação por força deste, embora sua ocorrência seja periódica, mas por meios indiretos como sua assimilação e descaracterização. O maior devora a identidade cultural do menor, potencializando-se no processo e forçando o último à obscuridade. Por exemplo, símbolos históricos da destituição de riquezas materiais podem ser desvirtuados, pasteurizados e embalados como produto, vide a triste mutação de São Nicolau em Papai Noel. E ai de quem nada contra a poderosa corrente. Peixes pequenos não têm muita chance no mar aberto: aniquilação é a opção restante.

Até que a Sbórnia nos Separe (Otto Guerra e Ennio Torresan, Brasil, 2013) é uma comédia e história de amor (tenho dificuldades para usar comédia romântica, mas vá lá) com um comentário bastante mordaz sobre a sociedade de consumo e a globalização. Passando-se na era posterior à Terceira Revolução Industrial, de avançada modernização das metrópoles, o enredo desembaraça a trágica trama do processo que levou ao fim a insular Sbórnia.

País ilhado do resto do mundo, um acidente faz com que a muralha cercando a ilha desabe e permita a chegada de estrangeiros. Os povos das metrópoles modernas se encantam e se horrorizam com o choque cultural dos costumes dos sbornianos enquanto empreiteiros arrivistas reconhecem de imediato o valor desse exotismo, à medida que os próprios nativos reagem diversamente às novidades do mundão civilizado.

A dupla de músicos Pletskaya e Kraunus encarna exemplarmente essa dualidade: o primeiro, mais romântico, enxerga o lado positivo da troca cultural e se apaixona pela filha de um industrial vilanesco; o segundo prefere lutar, mesmo a contragosto da família mais aberta às mudanças, contra as influências homogeneizantes das nações estrangeiras e pela conservação da tradição e autonomia da Sbórnia. Ressalte-se que, embora o filme demonize o corporativismo impessoal do mundo globalizado, ele não exprime a abertura da Sbórnia como algo fundamentalmente negativo. Pelo contrário, é difícil concordar com a visão provinciana e xenofóbica de Kraunus, detentor de uma relutância abissal em aceitar as contribuições relevantes da dissolução de fronteiras nas áreas de ciência, entretenimento e moda. Uma visão estreita que se incomoda com as implicações menos perniciosas, o diálogo e mutualidade entre culturas, e negligencia o muito mais grave perigo ecológico personificado pelos industriais.

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Sbórnia parece defender a tolerância e as trocas emocionais como reação vital a uma conjuntura insensível e coisificante. Novamente lembrando, porque é bem fácil esquecer, que uma história de amor é de fato o epicentro moral do filme. Enquanto os vilões enxergam na Sbórnia apenas um nicho de mercado e Kraunus e os localistas mais fanáticos pregam a retirada maciça dos estrangeiros, Pletskaya e Cocliquot amam-se a despeito de residirem em lados opostos de um novo muro cada vez mais demarcado. Uma versão maximalista de Romeu e Julieta em que o casal está destinado à tragédia não pela rivalidade de famílias tradicionais, mas pela inadequação entre a própria tradição incivilizada e a modernização voraz e autoritária.

O causo do peixe perdido no mar aberto, antevisto lá no primeiro parágrafo, é análogo ao resultado final do imbróglio: explosão do mais fraco. A arruinada ilha de Sbórnia é lançada à deriva no oceano e o peixe pequeno Kraunus se vê farejado por tubarões. O duplo exílio de Pletskaya e Cocliquot é o toque irônico de todos esses processos.sbo-copy-620x330

Até que a Sbórnia nos Separe tem sua cota de problemas. A dublagem irregular e por vezes ininteligível é o mais grave. Nico Nicolaiwesky e Fernanda Takai (participando também com uma canção com jeitinho contractual) esforçam-se, mas o amadorismo de seus trabalhos incomoda a ponto de prejudicar o carisma do casal Pletskaya e Cocliquot. A performance de Arlette Salles como a esposa esnobe do vilão, em comparação, é especialmente bem-feita e engraçada. A animação mundial está num processo de renovação e esperamos que logo a importância conferida por suas maiores indústrias (EUA e Japão) ao trabalho de voice acting seja do mesmo nível no Brasil. A relevância disto perpassa desde a suspensão de descrença à configuração de um elemento humano capaz de conectar expressões de sentimento convincentes a figuras estilizadas.

A animação propriamente dita tem mais méritos. Contrasta de um jeito funcional o detalhismo dos cenários com o design econômico dos personagens. Sequências como o pesadelo claustrofóbico de Kraunus e o primeiro encontro de Cocliquot e Pletskaya, embalado por uma canção de Pixinguinha, destacam-se pela conversão estilística, acentuando momentos-chave. Gosto em especial do design caricatural dos protagonistas, o que confere a eles um ar esquisito, porém simpático.

As disparidades de verba entre uma animação em longa-metragem brasileira e, a título de comparação, uma da Europa ocidental evidenciam-se mais nitidamente na mobilidade/fluidez e no investimento óbvio em pós-produção. Compensa-se com a beleza e força simbólicas dos planos, qualidade na composição de cenários e caracterização mais cartoonizada, o que já estou acostumado a testemunhar em realizações brasileiras no festival Anima Mundi, que frequento religiosamente.

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Sbórnia é mais um ponto para a tradição que vem cultivando há pouco tempo coisas como Uma História de Amor e Fúria, O Menino e o Mundo, Minhocas, os curtas de Marão e Rosana Urbes, a renovada produção dos estudantes e professores das escolas de animação e, at least but not last, o próprio Otto Guerra, que, embora mais experiente, estreou em longas-metragens num relativamente próximo 1995. Fica a impressão encorajadora de que coisas muito boas estão reservadas para o futuro da animação brasileira. Torçamos e contribuamos para que elas se realizem.

Gabriel Resende Santos

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Decálogo ao jovem crítico cinematográfico

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  1. Apresente informações relevantes da produção

Ao escrever uma crítica sobre um filme é preciso apresentar informações básicas sobre a produção, tais como título da obra em português, título original, ano de lançamento e direção. Dependendo do enfoque e os destaques do texto, também convém assinalar quem assina o roteiro, a direção de fotografia, a direção de arte, etc. E, acima de tudo, procure transmitir essas informações o quanto antes no texto.

  1. Aponte qual é o gênero da história

Uma vez que toda obra pode ser categorizada dentro de um gênero, a função do crítico seria apontar quanto determinada produção confirma ou inova determinado modelo. E, vale lembrar, para esse tipo de atividade é importante ter um repertório mínimo, pois se a aferição de valor surge por comparação, é preciso conhecer vários outros espécimes do gênero para estabelecer um julgamento valorativo da obra em si. Muitas das vezes, o comparativo pode se dar, ainda, em relação às outras obras do mesmo diretor. Quanto a esse aspecto, também é produtivo situar a obra em relação à cinematografia do diretor, apontando erros e acertos, a depuração do estilo e as apostas estilísticas.

Outro dado muito importante diz respeito às combinações de gênero, uma vez que a crítica é unânime em sinalizar de que não há gêneros puros. Logo, pontuar os componentes inerentes a outros modelos narrativos é uma tarefa básica. Acostume-se ao texto crítico que avalia as combinatórias gênero-barra-gênero (horror/ficção científica, por exemplo).

  1. Discuta sobre o que a história trata

Em linhas muito gerais, o crítico deve apresentar a história. Pode até se valer do sete loci (O quê? Quem? Quando? Onde? Como? Por quê? Para quê?) como um guia primário, mas tendo o cuidado para não revelar detalhes em demasia e enveredar para um texto com spoilers (revelações de momentos de virada da trama, de detalhes sobre o desfecho ou de outras circunstâncias nas quais a surpresa deva ser preservada). O crítico deve, a princípio, guiar o olhar do espectador e, nessa pedagogia, destacar o que for essencial. Nesse ponto, é possível discutir questões como: qual a premissa do filme? Como a premissa se ajusta à estrutura da narrativa? Como os personagens dão conta de expressar as questões propostas? Como a história aprofunda, areja ou reitera componentes tradicionais do tema?  Quais outros filmes já trataram do mesmo assunto? Qual o tipo de abordagem do tema? Há metáforas e alegorias? A história é uma adaptação? Um remake? Lembre-se: o texto crítico precisa estabelecer-se a partir de um comparativo, ainda que essa comparação não esteja explícita no discurso.

  1. Quem são os personagens

Ao se referir aos sujeitos ficcionais da trama, não se esqueça de nomear o personagem e, em seguida, indicar quem é seu intérprete. Pontuar o desempenho dos atores/atrizes também colabora para dar uma avaliação global sobre a produção. Inclusive no sentido de indicar como uma boa atuação realça um roteiro ou como um bom roteiro é prejudicado por uma atuação incipiente.

  1. Evite adjetivação pessoal, jargões e expressões vazias.

Por mais que se trate de um texto que formula um parecer crítico e, logo, valorativo de uma obra, não convém marcar uma postura imparcial. O crítico precisa manter certa neutralidade no discurso, ao modo de um jornalista, tendo a capacidade de se posicionar criticamente diante de qualquer objeto por mais que não seja sua seara favorita. Portanto, usar com parcimônia e sofisticação os adjetivos (e também os advérbios), os maiores responsáveis pela marcação pessoal de julgamento, deve ser uma regra. Então, nada de dizer que a fotografia é belíssima, o diretor é magnífico, o filme é estupendo. Especialmente se esse é apenas um adjetivo que não é justificado pelo texto. Afinal, o leitor precisa saber por quais razões técnicas e objetivas aquele atributo está sendo empregado para aquela produção.

O mesmo vale para os jargões e expressões vazias. Dizer que a direção é segura ou a montagem é precisa não colabora em nada para o texto, sobretudo porque parte do pressuposto de que aquela obra se destaca das demais, as que são seu oposto: feitas de uma direção insegura e de uma montagem imprecisa. Ou, de outra sorte, dizer que uma direção de arte é acertada é incorrer em uma expressão vazia que apenas funciona como uma muleta econômica: não vai além disso. Por que a direção é acertada? Como colabora para a criação da ambiência, da atmosfera, da caracterização do espaço e do personagem? Etc. Julgamentos valorativos necessitam de um complemento – a explicação.

  1. Saiba a que público seu texto se dirige

Há estilos diferentes e públicos diferentes. Não seja acadêmico em uma crítica de cunho jornalístico ou informal em um artigo em periódico especializado. Cada tipo de texto tem seu tipo de leitor, e se isso é verdade para todos os gêneros literários, também o é para a crítica. O suporte ou veículo de circulação pode colaborar para a definição de suas escolhas textuais.

  1. Não tenha preconceitos

Tratar qualquer gênero ou estilo com desprezo é se fechar para novas experiências profissionais e arriscar a sustentação intelectual por meio de seus textos. Um dever primordial do crítico é lidar com todos os objetos, sem exceção, evitando as generalizações negativas de gêneros cinematográficos e, consequentemente, a recusa por um determinado filme. Cada obra audiovisual, independentemente de seu gênero, tem um potencial individual, especialmente por conta da gama de hibridações possíveis de ocorrer com outros gêneros.  Portanto, independentemente do seu repertório e de suas afinidades eletivas, não seja depreciativo com qualquer obra ou categoria por simples (e injustificado) preconceito pessoal.

  1. Estude e dialogue

Um crítico que leve a sério o que faz precisa buscar todos os meios ao seu alcance para se aperfeiçoar. Estude história, teoria, técnicas, leia as obras seminais e os trabalhos de outros críticos. E veja filmes. Inúmeros filmes. Além disso, esteja aberto ao debate com aqueles que concordam e discordam de você. Trata-se de um excelente treinamento tanto para o desenvolvimento de seus próprios argumentos quanto para valorizar aquilo que o olhar do outro alcançou.

  1. Desvie-se do texto poroso

Um crítico perde a capacidade de dizer algo quando entrega a tarefa ou o esforço para os outros, soterrando sua própria voz. Portanto, nada de reproduzir longos trechos de material de press release, de entrevistas dos criadores e/ou de comentários de outros críticos. Se o fizer, estabelece um equilíbrio saudável: convoque informações pontuais que reforcem sua argumentação. São como para coroar suas próprias observações. Do contrário, se assim não for, o texto fica aerado com tantas outras vozes que chega a perder a função de crítica.

  1. Entenda que o crítico produz um texto de risco

Por ser um texto judicativo, no qual é preciso posicionar-se diante de determinada obra, pode-se dizer que a crítica cinematográfica é onde se pode perceber o sujeito e seus artefatos. E essa é uma tarefa que envolve risco. Muitas vezes seu produto textual pode seguir pela contramão dos demais textos, o que não significa que seja uma via de demérito. Nada é consensual em termos de arte. O importante, contudo, é assumir os riscos com consciência ao estabelecer inusitadas relações, propor aproximações, assumir leituras metafóricas. É conhecer a natureza do próprio gênero textual – a crítica – e reconhecer a possibilidade do direito de resposta, da revelia, do contra-argumento. Esteja preparado e só assine embaixo de um texto que você realmente acredita: pois quando tiver de defendê-lo, poderá fazê-lo sem culpa e sem reservas.

A crítica cinematográfica não se trata, contudo, de uma arena de embates, sejam eles com luvas de boxe ou luvas de pelica. Antes disso: é um lugar no qual o crítico deve correr o risco de sofisticar o próprio pensamento e o dos outros. Sobretudo o dos outros.

Marcio Markendorf & Gabriel Resende Santos